Um fenómeno recentemente descoberto sugere que o espaço entre a Terra e a Lua não está uniformemente exposto aos raios cósmicos galácticos, um fluxo constante de partículas de alta energia provenientes de além do nosso sistema solar. Dados da sonda Chang’e 4 da China, no outro lado da Lua, indicam a presença de uma “cavidade” temporária neste fluxo de radiação, reduzindo os níveis de protões em até 20% quando a Terra e a Lua se alinham numa orientação específica.
Raios Cósmicos e a Ameaça à Exploração Espacial
Os raios cósmicos galácticos (GCRs) são partículas energéticas – principalmente prótons e núcleos atômicos pesados – emitidas por eventos como explosões de supernovas. Essas partículas representam um perigo significativo para os astronautas e tripulações de voo em grandes altitudes porque são radiações ionizantes, capazes de danificar o DNA e aumentar o risco de câncer. Embora a atmosfera da Terra proteja em grande parte a superfície, as naves espaciais e as missões lunares permanecem expostas.
A atividade do Sol também influencia os níveis de GCR; as erupções solares e o aumento da atividade magnética podem desviar algumas dessas partículas, mas as novas descobertas apontam para outro fator de proteção: o campo magnético da Terra. A equipe descobriu que o campo magnético da Terra também pode – mas o Sol ainda está indiretamente envolvido.
A descoberta de Chang’e 4
O módulo de pouso Chang’e 4, equipado com um instrumento Lunar Lander Neutron and Dosimetry (LND), tem monitorado o fluxo de prótons no lado oculto da Lua desde 2019. Ao analisar dados de 31 ciclos lunares, os pesquisadores observaram uma queda consistente nos níveis de prótons quando a Lua entrou em uma posição orbital específica – o “setor preneon” – em relação à Terra e ao Sol.
Essa redução não é aleatória. Está ligado ao alinhamento do campo magnético interplanetário, que espirala para fora do Sol à medida que gira (conhecido como espiral de Parker). Quando este campo se alinha com o campo magnético da Terra, cria uma “sombra” no fluxo GCR. A Lua passa efetivamente por esta região de radiação reduzida por cerca de dois dias durante cada órbita.
Implicações para missões futuras
Os pesquisadores sugerem que esta descoberta tem aplicações práticas para o planejamento de missões espaciais. Ao programar operações lunares, particularmente atividades extraveiculares (EVAs), durante os períodos em que a Lua está dentro desta cavidade GCR, a exposição dos astronautas à radiação poderia ser minimizada.
“Esta descoberta fornece uma estratégia potencial para o planejamento da missão… as operações poderiam ser programadas para coincidir com esses períodos de radiação mais baixos para reduzir o risco de exposição.”
Mais pesquisas são necessárias para mapear a extensão e o comportamento deste fenômeno, o que também poderia informar estratégias de proteção contra radiação para missões próximas a outros corpos magnetizados em nosso sistema solar. O estudo ressalta que a radiação espacial não é uniforme e a compreensão dessas variações é crucial para garantir a segurança dos futuros exploradores.
